Descentrada, vol. 10, nº 1, e290, marzo - agosto 2026. ISSN 2545-7284Artículos de temática libre
Abjeção como força pragmática: bolsonarismo, produção semiótica da abjeção e o privilégio heterossexual
Resumo: Este artigo contribui com o conhecimento sobre linguagem e sexualidade, discutindo como a performance de sexualidades dissidentes como abjetas, pode ser empregada como armas semióticas para atacar politicamente figuras públicas heterossexuais consideradas hediondas. Analisa-se cartuns satíricos publicados no X (antigo Twitter) que criticam politicamente o primeiro encontro entre Trump e Bolsonaro com acordos que beneficiaram unilateralmente os EUA. O texto fornece detalhes sobre a cena interacional entre os líderes políticos, descreve os movimentos indexicais do encontro e contesta o privilégio heterossexual ao redescrever o conceito de abjeção. A metodologia, que celebra a Linguística Queer e os Estudos Críticos da Sexualidade, conjuga análise conceitual e indexicalidade criativa. Dentre as conclusões, destaca-se a reformulação do conceito de abjeção como performativo, intertextual e prototípico. Tal redescrição possui força ética para a democratização da abjeção.
Palavras-chave: Gênero e Política, Performatividade, Abjeção, Cartuns satíricos, Estudos Críticos da Sexualidade.
Abjection as performative force: bolsonarism, the semiotic production of abjection and the heterosexual privilege
Abstract: This article discusses language and sexuality by providing data on how dissident sexualities, performed as abject, can be employed as weapons to politically diminish heterosexual public figures considered heinous. It analyzes satirical cartoons published on X (previously Twitter) that politically criticize the first meeting between Trump and Bolsonaro with agreements that unilaterally benefited the US. The text provides details about the interactional scene, describes the indexical movements of the meeting, and contests heterosexual privilege by redescribing the concept of abjection. The methodology, which celebrates Queer Linguistics and Critical Sexuality Studies, combines conceptual analysis and creative indexicality. Among the findings is a redescription of the concept of abjection as performative, intertextual, and prototypical. Such a redescription has ethical force as an anti-essentialist proposal for the democratization of abjection.Keywords: Gender and Politics, Performativity, Abjection, Satirical cartoons, Critical Sexuality Studies.
La abyección como fuerza pragmática: bolsonarismo, la producción semiótica de la abyección y el privilegio heterosexual
Resumen: Este artículo contribuye al conocimiento sobre lenguaje y sexualidad al discutir cómo la performance de las sexualidades disidentes como abyectas puede ser utilizada como arma semiótica para atacar políticamente a figuras públicas heterosexuales consideradas atroces. Se analizan viñetas satíricas publicadas en X (antes Twitter) que critican políticamente el primer encuentro entre Trump y Bolsonaro con acuerdos que beneficiaron unilateralmente a EEUU. El texto ofrece detalles sobre la escena interaccional entre los líderes políticos, describe los movimientos indexicales del encuentro y desafía el privilegio heterosexual al redescribir el concepto de abyección. La metodología, que celebra la Lingüística Queer y los Estudios Críticos de la Sexualidad, combina el análisis conceptual y la indexicalidad creativa. Entre las conclusiones se encuentra la reformulación del concepto de abyección como performativo, intertextual y prototípico. Tal redescripción tiene fuerza ética para la democratización de la abyección.Palabras clave: Género y Política, Performatividad, Abyección, Caricaturas satíricas, Estudios Críticos de la Sexualidad.
1. Introdução
Em 17 de março de 2019, o continente americano testemunhou o encontro político mais significativo do ano. O encontro entre os então presidentes e paladinos da extrema-direita Jair Bolsonaro e Donald Trump foi cercado de medo, ansiedade e apreensão, e estas forças afetivas em torno da reunião não eram injustificadas, visto que ambos conquistaram massas devotas de seguidores, “rompendo com convenções e usando linguagem direta e simples para pregar uma mensagem de violência, ódio, vitimização, guerra cultural de direita, anticiência e antiglobalismo”, como explicam Fishman e Moro Martins (2019, par. 1) em um artigo publicado no The Intercept. Apesar da atmosfera tensa em torno do encontro, cartunistas e pessoas usuárias de redes sociais no Brasil zombaram do concílio através da sexualização da representação do ex-presidente brasileiro: como sexualmente receptivo, ele foi representado como passivo, submisso e propenso a ser penetrado pelo então presidente americano.
A reinterpretação sexualizada daquele encontro político encontrou eco social e apoio popular nos acordos políticos entre Brasil e Estados Unidos firmados na ocasião, e através dos quais o ex-presidente brasileiro apresenta o país e a si mesmo como aliados subservientes. São alguns deles: a redução das taxas de exportação do etanol brasileiro para os EUA, a tributação excessiva de produtos americanos como o aço e a doação de uma base militar em território brasileiro. Estes acordos foram retratados na mídia brasileira como uma forma de estupro dos tesouros naturais da pátria, penetrada e devorada pelo imperialismo americano. Considerando este contexto politicamente ultrajante de benefício unilateral, o conclave entre os dois supremacistas brancos foi investido não apenas com a atenção de seus antagonistas, mas também com toda sua revolta, agressividade e sarcasmo, veiculados por meios semióticos. A prontidão de Bolsonaro em agradar o colonizador e a falta de compromisso com o bem-estar no Brasil compeliu os cartunistas aqui discutidos ao desejo de performar os políticos como revoltantes, nojentos e vergonhosos: figuras verazmente abjetas. E a via semântica para performar abjeção foi a das sexualidades dissidentes.1
Os cartuns satíricos circulados no X no dia do encontro, zombavam publicamente de um desejo machista e tóxico nutrido por si mesmo e por outros similares. Entretanto, as performances cômicas retratam os populistas como personagens sexualmente abjetos, por meio de índices de sexualidades não-heterossexuais. Isto me levou a ressentir a maneira como estes cartuns indexam vulnerabilidade sexual, vergonha sexual e prazer anal, associando-os com a produção semiótica de duas figuras públicas, que são percebidas como abjetas justamente pelos abusos políticos dos privilégios masculinos e da violência, pela branquitude e principalmente pela sua aparência física. Ao performar ideologias de “vergonha sexual” (Warner, 2000) e “bad sex” (Rubin, 1984), os cartuns satíricos acabaram reificando a heteronormatividade, da qual esses dois homens são viciosos defensores. A retificação se deu através da sinonimização das sexualidades dissidentes com o comportamento político neofascista dos ex-presidentes. A fim de compor uma crítica da crítica, este artigo abordará as performances cômicas do insulto, criticando o vínculo indexical inventado entre os ex-presidentes e representações do prazer anal, homossexualidade receptiva e BDSM. Primeiramente, dedico alguns parágrafos para disputar o conceito de abjeção metalinguisticamente, conceito que vamos perseguir durante todo o texto. Em seguida, é explorada a relação entre o bolsonarismo e a abjeção. Depois disso, delineio os contornos metodológicos da análise. Em seguida, mais detalhes sobre o encontro são fornecidos para explicar o contexto e a análise que é empreendida em quatro subseções. Finalmente, são apresentadas as considerações finais.
2. Disputando a abjeção
Esta seção apresenta uma disputa discursiva pelo conceito de abjeção por uma perspectiva socioconstrutivista. O conceito de abjeção descrito por Julia Kristeva (1982) tem sido mais do que influente para os Estudos Críticos da Sexualidade, campo que inspira teoricamente esta tessitura. Nesta área do conhecimento, a abjeção tem sido considerado uma de suas três prioridades epistemológicas (Fahs e McClelland, 2016; Marzullo, 2021), juntamente com uma avaliação crítica do privilégio heterossexual, e a análise conceitual (Bal, 2009). Nos Estudos Críticos da Sexualidade, o abjeto tem sido convocado para atribuir centralidade política às corporalidades e às práticas sexuais consideradas marginais na matriz cis-heteronormativa. A discussão do conceito é per se uma forma de produzir conhecimento, pois a descrição cuidadosa dos embates discursivos e metalinguísticos pode ajudar a destacar seus itinerários de significado e a forma como o poder se move por eles, como os movimentam. Além disso, como sugere Bal (2009), deve-se “buscar [a] base heurística e metodológica nos conceitos e não nos métodos” (p. 14) como forma de garantir clareza e fornecer aos interlocutores de humanidades interdisciplinares as ferramentas metapragmáticas para dar sentido ao nosso texto. Inspirado nesta proposta de análise conceitual, proponho a “abjeção” “como ferramenta de análise” (Bal, 2009, p. 16). Entendemos que há um ganho político em fazê-lo, dado que o caminho metodológico que a autora sugere atribui prioridade à crítica social em detrimento da teoria.
Enquanto constrói o significado da abjeção em seu perspicaz ensaio, Kristeva (1982) a entrelaça com o medo primordial e a infância. Por um viés psicanalítico, ela abre espaço discursivo para que o inconsciente universalize eticamente a abjeção. De fato, em algumas partes do texto, a abjeção parece ser entendida como um traço psicanalítico infligido em idade infanto-juvenil, uma significação visceral subjetiva, embora também compartilhada socialmente. Deleuze e Guattari (1972) criticaram a excessiva preocupação que a psicanálise exprime com as experiências da infância, como uma forma de aplicar excessiva atenção ao triângulo edipiano, suposta fonte de significado para o comportamento humano. As reflexões de Kristeva (1982), produzem uma apreensão de abjeção que não considera sua contextualidade nem seu caráter performativo e, portanto, investe nela como uma horrorificação essencialmente universal provocada pelos mesmos traços, o que reforça uma ideia pervasiva do abjeto.
Este entendimento parece contradizer o compromisso ético que o socioconstrutivismo, a partir da performatividade, propõe ao recusar o essencialismo como destino previsto. Com essa crítica em tela, sugiro pensar a abjeção como uma força pragmática, uma estratégia política para alcançar semioticamente o terrível significado de abominável, horrendo, asqueroso, e consequentemente – ou como dano colateral – atacar e vilipendiar identidades que são performadas como abjetas. Isso implica pensar abjeção como um efeito de performances, um conceito centrípeto de tal maneira que se torna impossível saber o que veio primeiro: o horrorizado ou a abjeção. Nesse sentido, proponho abjeção como um efeito performativo, em vez de “a repressão primordial” (Kristeva, 1982, p. 12). Afinal de contas, a abjeção é um efeito de performances específicas que desafiam o próprio significado. No entanto, a abjeção é um fenômeno significativo como foi reconhecido por Kristeva (1982), quando ela descreve a abjeção como “uma pesada falta de significado, sobre a qual não há nada insignificante” (p. 2).
Se, para a autora, o primordial e as repressões são inconfundíveis, bem definidos e únicos, um entendimento ético da abjeção a dissolve pelos domínios da possibilidade, democratizando a capacidade de afetar negativamente e de ser percebido socialmente como abominável, horrendo, asqueroso. Adotar o conceito a partir de uma perspectiva performativa – em vez de psicanalítica – pode proporcionar um panorama mais inclusivo das subjetividades abjetas. Nesta perspectiva, nomear alguém ou algo como abjeto é um gesto complicado, uma vez que pode ser condenatório. De fato, Judith Butler (1993) tem historicamente se negado a fornecer exemplos do que ela chama de “corpos que não importam”, considerando que a própria natureza e limites dos corpos são discursivos, e seus significados contingentes e em constante negociação. Portanto, afirmar que a abjeção é performativa implica que, em vez de nos concentrarmos em essências, devemos nos voltar para sua construção flexível através de características prototípicas. De acordo com uma lista fornecida por Fahs e McClelland (2016) compilada através de revisão de literatura, a abjeção pode ser performada por um conjunto de características diferentes, tais como: pelos corporais, feminilidade, raça, viscosidade, corpos sangrentos, corpos contagiosos, idade, dor sexual e práticas sexuais percebidas como assustadoras. Qualquer uma destas características – ou uma combinação delas – pode indexar a abjeção, pode produzi-la como efeito de uma relacionalidade entre corpos.
Como os significados formativos da abjeção são altamente pessoais e, ao mesmo tempo, sociais, poderia ser perspicaz pensá-la como um conceito prototípico. Ao considerá-la como prototípica e performativa, tomamos emprestada uma solução simples para um problema complicado: a instabilidade da essência e a falta de definição de abjeção seriam devidas à flexibilidade performativa do significado visceral. Assim, corpos peludos, corpos femininos, corpos não-brancos, corpos viscosos, corpos sangrentos, corpos contagiosos, corpos muito jovens e muito velhos, dor sexual, sexo assustador e prazeres assustadores podem ou não ser abjetos. Embora o arcabouço filosófico da performatividade não seja explícito no campo, a metalinguagem da performatividade pode ser vista operando em vários trabalhos em Estudos Críticos da Sexualidade. Fahs e McClelland (2016) usam a voz passiva “ser feito abjeto” (p. 402), “ser produzido abjeto” (p. 403) para indicar que a abjeção é feita aos corpos em vez de preexistir neles, reforçando assim o caráter pragmático e contingente da abjeção. Ao empregar uma metalinguagem que indexa os princípios do construtivismo social, as autoras acima citadas ressaltam a instabilidade referencial do abjeto. Paralelamente, Plummer (2012) postula que as sexualidades “estão sempre em movimento, moldadas pelo tempo e pelo espaço, e orquestradas através do poder e das desigualdades” (p. 245). Esta afirmação faz mais do que postular o sexo como um empreendimento inescapavelmente político, ela destaca a performatividade do sexo. Outro exemplo de como a performatividade habita a metalinguagem dos Estudos Críticos da Sexualidade seria a descrição do campo feita por Fletcher, Dowsett, Duncan, Slavin e Corboz (2012): “A pesquisa, ensino e financiamento dos Estudos Críticos da Sexualidade interrogam questões de poder, verdade e reivindicações de conhecimento, e reconhecem a natureza experiencial, mutável e culturalmente embutida dos significados atribuídos à sexualidade” (p. 320). Esta sugestão implica, por um lado, que o trabalho de Foucault sobre sexualidade, epistemologia e a historicização da verdade foi altamente influente no campo. Por outro lado, sinaliza para uma compreensão performativa dos significados em torno do sexo, da sexualidade e das práticas sexuais, uma vez que elas são dinâmicas, dependentes do contexto e mutáveis. Considerando a metalinguagem nos textos citados, textos influentes no campo dos Estudos Críticos da Sexualidade, noto um comprometimento com uma compreensão performativa dos signos sociais, corpos e sexo. Sugiro aqui um envolvimento explícito com o quadro teórico da performatividade (Butler, 1993, 1997) que pode nos guiar filosoficamente pelo processo de pesquisa e no entendimento de que a abjeção não habita corporeidades, mas é produzida contextualmente, por atos performativos que inauguram inovadoras relações de sentido, também contextuais.
3. Bolsonarismo e abjeção
Ao contrário da crença popular, o bolsonarismo não é um movimento político que gravita em torno daquele que cedeu o nome. Como explica Nunes (2022), a relação entre a figura polêmica central ao bolsonarismo e o fenômeno que carrega seu nome é “uma contingência” (p. 24). Qualquer outro personagem poderia figurar como o garoto-propaganda deste movimento antidemocrático, que Souza Santos (2022) acredita ser uma das últimas jogadas desesperadas do neoliberalismo no mundo. É difícil negar a presença do empreendedorismo neoliberal no centro do bolsonarismo, um arranjo de forças políticas nem coerente nem necessariamente estável (Nunes, 2022), alimentado pela misoginia e homofobia, autoritarismo e frustração, o principal combustível para a cooptação neoliberal em qualquer lugar ao sul de Tijuana, de acordo com Valencia (2010). Entretanto, além de empreendedor, o bolsonarismo “deve ser visto como o encontro de uma série de tendências sociais que há algum tempo estavam imbuídas de um certo tropismo” (Nunes, 2022, p. 25), como o ressentimento e um desejo de violência, destruição e austeridade econômica contra grupos sociais historicamente marginalizados.
Quer protagonista ou não de seu próprio movimento político, nenhum outro político conseguiu uma resposta tão inflamada no cenário político brasileiro: metade da população é completamente enojada por sua figura, enquanto seus/suas seguidores/as passaram a performar afetos igualmente fortes contra seus/suas opositores/as frequentemente descritos/as como inimigos/as, após anos de inculcação de fake news e distorções da realidade somada ao elogio da ideologia neoliberal. Além de mentir descaradamente, razões pelas quais ele inflama as pessoas incluem seu desprezo pela vida, pelos humanos e pelo planeta, e uma performance de niilismo e revanchismo. Em outras palavras, ele se opõe à vida e ao planeta, performando a principal característica da abjeção de acordo com Kristeva: um ethos ameaçador da vida. Como afirma Kristeva (1982), “o abjeto tem apenas uma qualidade do objeto - a de ser oposto ao eu” (p. 1). Ela acrescenta em outra parte do texto: “o abjeto é o equivalente à morte” (p. 24). De fato, genocida foi uma das alcunhas preferidas para se referir ao ex-presidente após sua lamentável gestão da saúde pública durante a crise do COVID-19. Para a maioria no Brasil, sua posição antivacina, a publicidade de medicamentos comprovadamente ineficazes e a gestão desastrosa são diretamente responsáveis pela morte de 600 mil brasileiros, pelos quais ele não expressou absolutamente nenhuma simpatia: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?" (Gullino, 2021), "Não sou coveiro!" (Adamo Idoeta, 2022). Indiferente ao luto, ele produziu abjeção performativamente. Contudo, a principal estratégia política de manipulação midiática em seu mandato foi precisamente inverter essa abjeção, projetando-a no Outro, investindo em notícias falsas para persuadir seus acólitos dessa inversão.
Cesarino (2020) enfatiza que suas estratégias de comunicação apostavam na distorção indexical de valores, e consequente acusação do horror que se inspira no Outro, escondendo o terror que ele infligiu imoralmente sob suas reivindicações de vitimização e os escudos da moralidade. A inversão indexical de signos abjetos através de fake news marcou sua vida política. Bolsonaro forneceu dados empíricos para a sugestão de Kristeva (1982) de que: “Abjeção, (...), é imoral, sinistra, ardilosa e sombria: um terror que se dissemina, um ódio que sorri, uma paixão que usa o corpo para descarte em vez de inflamá-lo, um devedor que te vende, um amigo que te esfaqueia” (p. 4).
Descartado, vendido e esfaqueado foram sentimentos populares no governo do 38º presidente. Sua campanha eleitoral e comunicação governamental investiu no despertar de sentimentos extremos, com os quais não se pode argumentar: medo, ódio e repugnância. O medo foi em grande parte indexado pelo fantasma do comunismo, pela ameaça do Brasil se tornar Cuba, alegorias para o pavor da perda de propriedade privada ou de privilégios econômicos. Além disso, Borba (2020) nos lembra que no contexto dos movimentos insurgentes antigênero, as campanhas de Bolsonaro, “utiliza[ra]m o medo de uma suposta ‘ideologia de gênero’ a fim de impingir visões depreciativas sobre posições progressistas que são a favor da equidade de gênero e da liberdade sexual” (p. 2). Miskolci (2021) sugere que os protagonistas políticos na cruzada pela moralidade pública investiram em grande parte na associação da corrupção com sexualidades dissidentes, disseminando pânico moral e protegendo a heterossexualidade reprodutiva.
O ódio, por outro lado, foi dirigido à esquerda–que ele prometeu “metralhar” (Bonin, 2022) –, contra Lula, contra o Outro, contra qualquer avanço democrático para as minorias. Nas palavras de Borba (2020), “seu ódio contra as feministas, a população LGBTIQ, as comunidades indígenas e as pessoas de cor foi expresso de forma flagrante em uma série de pronunciamentos públicos e marcou sua campanha eleitoral [e governo]” (p. 2). O nojo foi o último elemento emocional em sua campanha em direção à presidência. Com a intenção de converter mulheres ao bolsonarismo, algumas peças da campanha retrataram feministas e “mulheres de esquerda” como anti-higiênicas, feias e não-cristãs, investindo em imagens de mulheres com pelos no corpo, e a distribuição extensiva dessas representações online, impulsionadas pelos filhos do 38o presidente. Em nossa sociedade, as mulheres, não apenas se sentem obrigadas a remover seus pelos corporais, mas relatam que recusar a remoção pode suscitar para seus corpos avaliações depreciativas como “nojentas” e “pouco atraentes” (Fahs, 2011; Fahs e Delgado, 2011), pois “as normas sobre pelos corporais têm se mostrado pervasivas e consistentes entre as culturas ocidentais” (Fahs e McClelland, 2016, p. 402), nas quais a combinação de traços femininos e corpos peludos pode ser recebida com agressividade e até violência física. Infelizmente, retratar as mulheres de esquerda como repugnantemente peludas foi crucial para angariar adesões femininas nos meses finais de sua campanha em 2018. Esse exemplo de coerção de gênero endossa o entendimento de abjeção como um efeito performativo da produção de “sentimentos feios” (Ngai, 2007), tais como repugnância, nojo (ambos empregados por Kristeva como sinônimos de abjeção), ódio e medo em relação a alteridade. Outro sentimento feio que faz política contemporânea é o ressentimento (Brown, 2019). Ao investigar mulheres de extrema direita no cenário político do Brasil, Galetti (2024) estipula como uma de suas questões: Quais afetos políticos são mobilizados nesse embate entre feministas e antifeministas? Na seção intitulada “O ressentimento como afeto crucial”, ela se apoia em Brown (2019) para afirmar que a ótica do ressentimento mobiliza o avanço de governos antidemocráticos. Galetti explica que no Bolsonarismo, o ressentimento político masculinista emprega a família nuclear e sua demanda de defesa e cuidado como arma para a manutenção de papéis de gênero preestabelecidos. A produção de sentimentos feios e a inversão (Cesarino, 2020) projetando a abjeção no outro foram os ingredientes principais da “pragmática do caos” de Bolsonaro, um termo cunhado por Silva (2020) para descrever “um método reflexivo, ordenado e laminado de produzir um sentimento permanente de agitação, obscuridade e descontentamento no público político enquanto uma agenda conservadora e de mercado livre é radicalizada no Brasil” (p. 507).
4. Metodologia
Este artigo é guiado pelo desejo de explorar a relação entre linguagem e sexualidade por uma perspectiva política e ética, e, metodologicamente, ele celebra os Estudos Críticos da Sexualidade. Esta perspectiva crítica em direção à sexualidade pode ser frutífera na pesquisa linguística, uma vez que “a falta de estudos focados em atos sexuais e os sentimentos e identificações que esses atos provocam” (Lewis, 2020, p. 370) tem sido criticada no campo. Inspirado por Race (2018), proponho enquadrar a forma como a cultura contemporânea performa o sexo nos cartuns políticos não apenas como representações do sexo, mas como prática sexual legítima. Esta perspectiva da Pragmática dos atos sexuais coloca a linguagem e a semiose cultural no centro das análises socioculturais da sexualidade, as quais, por sua vez, também são entendidas como políticas. Pensar sexo como possível efeito semiótico favorece a intersecção entre uma Pragmática do sexo e Estudos Críticos da Sexualidade. Neste nexo, abjeção é redescrita como conceito e como efeito performativo.
Para compreender a materialidade e as nuances da performance da abjeção pela sexualidade, o projeto metodológico também investe em uma descrição densa da história política recente. Ademais, a metodologia homenageia o trabalho da antropóloga e ativista Gayle Rubin em dois sentidos. Primeiramente, porque provém embasamento empírico para as figuras do “bad sex” (Rubin, 1984), o pedófilo, o sadomasoquista e o sexualmente receptivo. Mas também porque abraça o convite para desenvolver uma “perspectiva radical da sexualidade”, no sentido de que “uma teoria radical do sexo deve identificar, descrever, explicar e denunciar a injustiça erótica e a opressão sexual” (Rubin, 1984, p. 148-149). Acredito que a performatividade é uma perspectiva teórica que alimenta a radicalidade rubiniana.
Além de performativo, o sexo tem muitas outras dimensões. A política é uma delas. No entanto, a política também tem muitos domínios entre os quais está o sexo, e outras disposições afetivas. “A importância dos estados afetivos nos contextos políticos contemporâneos atesta o fato de que a política dificilmente trata de raciocínio puro e argumentação” (Borba, 2020, p.12). Corrobora esse argumento o fato de a política ser afetiva, performativa e sexualmente saturada. Seguindo a recomendação de que devemos “permanecer constantemente atentos às práticas abjetificantes da pesquisa sobre sexo” (Fahs e McClelland, 2016, p. 403), volto minha atenção para as práticas sexualmente abjetificantes na política. Para isso, emprego uma episteme linguística – performativa – para interrogar a intersecção entre sexualidade e política, dando centralidade à análise do conceito de abjeção. Consoante Bal (2009), a metodologia enfatiza as disputas conceituais em torno da abjeção, sem, no entanto, abandonar a descrição densa dos acontecimentos políticos recentes e a “indexicalidade criativa” (Silverstein, 2009), um construto teórico-analítico que considera a descrição dos significados contextualmente de acordo com as relações pragmáticas a que recorrem, e inauguram em cada novo ato discursivo. Indexicalizar ou indexar significa anexar contextualmente sentidos outros. Indexar é remeter a outro sentido por diferentes vias semânticas transitivas e relacionais. Essa indexação dos sentidos é natural dos signos, e seus movimentos são interesse de análises como esta que se interessa por como as relações indexicais entre os signos produzem sociedade, produzem sentimentos, afetos e organizam relações socioculturais. Observando como os signos apontam para outros signos, torna-se possível produzir inteligibilidade sobre como o significado da abjeção é composto intertextualmente nas representações do encontro entre Bolsonaro e Trump, que descrevemos a seguir.
5. Quando fascistas colidem: o encontro presidencial
Na sala do encontro oficial cujo rebuliço midiático motivou essa análise, Bolsonaro e Trump posaram sem jeito para o fotógrafo, depois de vinte minutos a portas fechadas. Bolsonaro, visivelmente emocionado e honrado, é grande defensor do imperialismo americano e entusiasta de sua governança neoliberal. Como a tradição exige, ele presenteou Trump com uma camisa da seleção brasileira de futebol masculino, que foi recebida com notória falta de interesse e alguns “biquinhos”. Torcer os lábios e acenar com a cabeça foi tudo o que Trump foi capaz de exprimir naquela ocasião. Era visível que o muro entre a América do Norte e a América do Sul, era um muro linguístico, pois não falavam a língua um do outro. Na verdade, eles não falam nenhuma língua além de sua língua materna, nem trocam de código com destreza. Embora estivessem perdidos na tradução, conseguiram reforçar seu desejo de proximidade e ódio comum em relação à “ideologia esquerdista”, tanto é que discutiram a pressão econômica sobre a Venezuela e a admissão do Brasil na OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Na mesma ocasião, Bolsonaro permitiu o uso comercial da base militar de Alcântara no nordeste do Brasil e concordou com uma isenção unilateral de visto para turistas americanos, canadenses, japoneses e australianos que queiram visitar o país, além de uma parceria entre a polícia federal e o FBI, que foi recebida com desconfiança. Estas decisões reforçaram o caráter unilateral da relação entre os países, rompendo a tradição diplomática de acordos recíprocos, reiterando, portanto, o colonialismo como uma língua franca. Nesses vinte minutos, a cedência emasculada do presidente brasileiro aos desejos do presidente americano funcionou como uma metonímia onde o Brasil é traído por um acordo sombrio com uma força fascista internacional. A posição voluntária de exploração pelo colonizador abriu um campo semântico para os internautas expressarem sua frustração diante da passividade do “imbrochável” (Bolsonaro puxa coro de “imbrochável” em discurso, 2022). Como atributos comparáveis na cultura machista, a passividade política e a receptividade sexual são então performadas como indissoluvelmente interligadas. Esta imbricação imaginada possibilitou a construção do encontro como uma performance de um ato sexual. A análise proposta passa por quatro destas representações abjetas postadas no X, antigo Twitter:2 em primeiro lugar, um cartum que mistura política e cultura pop (Star Wars e Mickey Mouse) aludindo sutilmente ao abuso infantil e muitas outras coisas, desenhado por Aroeira (Perfil no X: @AroeiraCartum); em seguida, um cartum por Jota Camelo (Perfil no X: @ojotacamelo), no qual Bolsonaro está amarrado e Trump está lubrificando uma cinta-pinto; depois, uma colagem sem autoria dos rostos dos ex-presidentes em um casal vestido de couro; e, finalmente, um cartum satírico com Bolsonaro pendurado nos testículos de Trump por Juli Hermes (Perfil no X: @julihermes_). Estes cartuns satíricos são protestos políticos com grande relevância para a comunicação na política brasileira. Estes dados foram gerados no X no dia da reunião depois que ansiosamente escavei informações sobre o encontro e me deparei com uma abundância de conteúdo semiótico “depreciando-os” sexualmente. A natureza casual do procedimento de geração de dados e a perduração da circulação dos cartuns sugere que o interesse pelo encontro não foi pequeno e ecoa até hoje por diferentes mídias.
6. Sexualidades e identidades abjetas como munição para armas simbólicas
Abjeção tem seu significado atrelado à desumanização. Ela exila a humanidade. Argumento aqui é justamente que ser desumanizado é o efeito perlocucionário de ser construído como abjeto. A atribuição da abjeção pode, portanto, ser uma arma contra dissidentes sexuais, dado que a abjeção indexa um significado exilado, inumano. Por outro lado, sujeitos que desfrutam de plena cidadania sexual podem ser performados como abjetos através do retrato de suas práticas sexuais, tais como amar rapazes, penetrar o ânus masculino e o BDSM. Em última análise, encontros sexuais entre pessoas do mesmo sexo são característica prototípica da abjeção. Os dissidentes sexuais são moralizados e temidos, pois “a sexualidade se situa frequentemente em relação ao pânico moral e às ansiedades culturais” (Fahs e McClelland, 2016, p. 403). As ansiedades socioculturais retratadas em torno do sexo e da política são analisadas nas páginas seguintes em quatro subseções.
6.1. Abjeção e o colapso do significado
A abjeção é mostrada como intertextual nesta parte da análise. Ela é um efeito alcançado através da recombinação de signos que fazem referência a diferentes textos: o rosto de Trump com a adição da cauda, tronco e mãos de Jabba, vilão intergaláctico da saga Guerra nas Estrelas e o corpo de Bolsonaro complementado com as orelhas características de Mickey Mouse, um artigo comumente usado por crianças. A princesa Leia, cativa do monstro Jabba, também é um intertexto presente já que Bolsonaro passa a assumir seu papel na imagem, como um sujeito sexualizado por seu mestre, pela hierarquia da coleira. Juntos, estes signos produzem um sentimento de arrebatamento e confusão simbólica, indexando várias narrativas distintas que dramatizam os limites do significado e de sua coerência. Em outra ocasião chamei esse fenômeno de “indiciação rizômica” (Bonfante, 2016, p. 200), uma indexação multissígnica e multidirecional. Uma forma de performar abjeção é ultrapassar os limites da significação: “O que é abjeto (...) me atrai para o lugar onde o significado colapsa” (Kristeva, 1982, p. 2). O colapso do significado não faz alusão à impossibilidade de significação, mas ao fato de que a forma como a linguagem nos toca pode falar mais alto do que as palavras semânticas, sobretudo no caso da abjeção. A intertextualidade não é apenas uma forma de sobrepor textos, mas também de desvelar um tricô de camadas de significado, de percursos do sentido. A combinação de textos remonta a um momento cinematográfico clássico da cultura popular, onde a princesa Leia é levada prisioneira por Jabba na aventura de ficção científica Guerra das Estrelas. Como prisioneira, ela deve vestir trajes sensuais e permanecer acorrentada a Jabba, escrava de um monstro intergaláctico asqueroso (Figura 1). A alegoria sexual na escravidão da Princesa Leia tem nessa imagem um paralelo desconfortável com a relação monstro-rapaz: o monstro-abdutor é posicionado hierarquicamente em relação ao garoto de coleira. A corrente deixa claro quem “segura as rédeas”, um trabalho escalar ratificado pelas diferenças de tamanho e idade entre eles, dramatizadas pelo cartum. A mão no ombro também é um signo frequentemente explorado na relação homem-rapaz, muito presente nos desenhos homoeróticos de Tom da Finlândia. A morbidez de Trump, também é realçada por um corpo monstruoso, enquanto a perversidade de Bolsonaro é escondida sob a ingenuidade indexada pelas orelhas infantilizadoras de Mickey Mouse, numa relação entre monstro e Mickey que por si só rende abjeta.

Simbolicamente, a abjeção é um monstro; não pode ser nomeado, mas encarna uma corporeidade monstruosa, cujos traços prototipicamente performados são aqui: pele de monstro, e corpo gordo e viscoso. A gordura é uma forma de performar a abjeção. As narrativas corriqueiras sobre corpos com excesso de peso os performam como inerentemente falhos, defeituosos e nojentos (Braziel e Lebesco, 2001), e tentam despojá-los do erotismo (Cooper, 2010). A pele escamosa e a viscosidade também são traços importantes na performance intertextual da abjeção, uma vez que os fluidos viscosos produzem repugnância e sujeira à medida que tornam as superfícies perturbadoras e marginais. Aqui, a própria monstruosidade de Bolsonaro foi escondida para retratá-lo como um menino inocente segurado por uma corrente dourada, embora sua atitude pareça fortalecê-lo: uma expressão desafiadora, braços cruzados e um olhar fixo e severo que parece desprezar o espectador. A ênfase da composição na diferença de idade e a intertextualidade também nos leva na direção do "boy-lover", um conceito explorado por Rubin (1984) para se referir a encontros afetivo-sexuais entre homens mais velhos e mais jovens, em sua gramática do bom e mau sexo: “Como os comunistas e homossexuais nos anos 50, os amantes de rapazes são tão estigmatizados que é difícil encontrar defensores para suas liberdades civis, muito menos para sua orientação erótica” (Rubin, 1984, p. 147). O primeiro efeito de sentido que se produziu em mim na interação com esse cartum foi a alusão ao amor de homens mais velhos por mais jovens, um tipo de sinônimo popular de pedofilia (Rubin, 1984), comportamento sexualmente abominável, proibido na maioria das constituições democráticas do mundo, e recoberto por um denso tabu social e discursivo. Essa indexação de abuso infantil não é direta, mas feita com textos outros.
A intertextualidade é, de fato uma dimensão irrevogável dos textos e dos sentidos. Sobre o tema do abuso infantil é digno de nota que, embora a esmagadora maioria dos casos ocorra em casa em seu círculo íntimo, a pedofilia ainda é comumente alocada no reino simbólico da homossexualidade como uma forma de simultaneamente despojar os homossexuais de seus direitos políticos e proteger a família reprodutiva e a heteronormatividade como moralmente superiores. Com sua abjeta alusão a um tabu moral através de uma miscelânea de textos e contextos distintos, este cartum satírico nos convida a pensar tanto a abjeção quanto a sexualidade humana como intertextuais. As sexualidades humanas são de fato “fundamentadas em corporificações, emoções, economias e ambientes” (Plummer, 2012, p. 246). Elas são intertextuais, eloquentes, materiais e simbólicas. Exatamente como a abjeção.
6.2 Calças arriadas, presidente emasculado: o tabu da penetração do ânus masculino
Há décadas, Bersani (1987) sugeriu que, se o reto é realmente um túmulo, ele deve ser celebrado por seu potencial de aniquilação da masculinidade. Em sua crítica em resposta a uma sociedade com verdadeira fobia anal, o ânus é retratado como um buraco negro simbólico que engole todo privilégio masculino. Nessa perspectiva, o medo das possibilidades que o ânus forja é uma preocupação legítima sobre seu poder de ruptura, destruição e transgressão, os quais, por sua vez, performam o ânus como um artefato antimatéria, anti-discurso e antimacho: uma caixa de Pandora que deve permanecer selada para o bem da sociedade patriarcal. Por outro lado, Saez e Carrascosa (2022) propõem que só abrirá sua mente aquele que abrir o “cu”. Talvez, abrir o ânus pudesse de fato alcançar alguma utopia ética que a abertura das mentes nunca alcançou. Este é precisamente o ponto de Paco Vidarte (2007) em sua Ética Bicha, quando ele sugere uma “analética”, uma ética que realmente se preocupe com a felicidade e a dignidade das pessoas queer. No cartum que introduzo (figura 2), no entanto, nem a mente nem o ânus estão abertos aos “interesses americanos”. A “submissão” parece ser forçada, enquanto Trump zomba: “Então, você achou que a gente só queria o pré-sal?”

A alusão ao estupro é perturbadoramente gráfica: calças abaixadas, mãos atadas, uma expressão assustada, e a mordaça, um signo de silenciamento. É uma representação obscena de abuso sexual e uma chacota de práticas sexuais onde os jogos do consenso podem ser sensuais. Na cena, muitos elementos estão incoerentemente colocados, como as borlas dos mamilos (que indexam o burlesco), o quarto de dormir doméstico e organizado, (que indexa cuidado feminino e vida familiar), os acessórios de couro (que indexam a cultura do couro e o BDSM): todos estes elementos juntos performam uma composição completamente irrealista de práticas sexuais consideradas contra-hegemônicas. Na perspectiva de Kristeva (1982), a abjeção é, por vezes, sinônimo de obscenidade. Obscenidade não é apenas o que torna algo pornográfico; a palavra também nos permite referir àquilo que não deve ser visto ou mencionado. A composição do cartum performa três obscenidades aqui: o strap-on (cinta-pinto, popularmente), o ânus masculino prestes a ser penetrado, e a alusão à homossexualidade, esta última sendo frequentemente tomada como sinônimo de crimes sexuais como pedofilia e estupro (Ver Rubin, 1984), como já observado na discussão da Figura 1. Vamos nos concentrar nestas obscenidades, por uma perspectiva política.
Ao estudar a masculinidade feminina, Halberstam (2005) sugeriu que o descompasso entre a performance de gênero e o desempenho corporal é frequentemente interpretado como índice de abjeção, de modo que a acusação de abjeção sempre foi uma arma empregada pela cis-heteronormatividade para diminuir a importância política dos corpos trans. A abjeção conhece vários focos de tensão, especialmente os corporais e sexuais. As funções corporais produzem corpo, gênero e subjetividades, particularmente durante o ato sexual. Como Lewis (2020) afirma: “a penetração produz sujeitos dentro da matriz cis-heteronormativa” (p. 350). Na imagem, a cintaralho (strapon), adornada com uma bandeira americana, pode indexar o Brasil sendo oficialmente “fodido”: explicitamente penetrado e explorado, na medida em que o cartum sugere a iniciação de Bolsonaro por Trump na perversidade política/sexual. Além disso, o dildo da cinta pode indexar a falta de virilidade de Trump, pois ele precisaria de um instrumento para penetrar e, portanto, subjugar. A emasculação é uma estratégia frequente na política e na sociedade brasileira para depreciar alguém com base em sua percebida falta de virilidade, a qual também foi apontada como fator decisivo para a vitória das eleições no Brasil. Para Rivetti (2024), que discutiu a produtividade do capital erótico3 das mulheres – sobretudo Dilma Rousseff – na política brasileira, o Bolsonarismo preza pela performance de masculinidade como um signo de poder político. O corpo penetrador é forma de capitalizar na política, pois “homens associados aos atributos de uma masculinidade viril e hegemônica tem mais chance de serem eleitos, formarem alianças, gerir e administrar” (Rivetti, 2024, p. 298). A leitura da tese de Rivetti sugere que a composição homofóbica movimentada pelo cartum de Jota Camelo denota uma percepção popular da política como jogo de machos.
Lewis (2020) ilustrou como “discursos sobre penetração com dildos, em diferentes situações, produzem sujeitos sexualizados e generificados dentro de um sistema de restrições impostas pela sociedade” (p. 348). O trabalho de Lewis fornece dados empíricos para o argumento de Preciado (2014) de que os dildos poderiam complicar a oposição macho/penetrador versus fêmea/penetrado. Preciado (2014) argumenta que os dildos são próteses corporais que podem transformar o sexo, enquadrando papéis de gênero heterossexuais como contraditórios e instáveis. Seguindo Preciado, Lewis (2020) sugere que a matriz cis-heteronormativa tem regras de penetração, mesmo que possam ser arbitrárias: “a lógica do dildo prova que os próprios termos do sistema heterossexual masculino/feminino, ativo/passivo, são apenas elementos entre muitos outros de um sistema arbitrário de significação” (Preciado, 2014, p. 84). Nesse sentido, a sexualidade atribuída a Bolsonaro o retrata como politicamente passivo, ingênuo e covarde. Vencido e entregue. O ex-militar indefeso foi, ademais, empregado como um sinal de permissividade e falta de autonomia e agência corporal e política. O cartum também parece naturalizar a ideologia dos sujeitos receptores (passivos) nos atos sexuais como inferiores ou subjugados, a serem dominados, indexando a sexualidade receptiva e suas variantes como sinais de inferioridade tanto em termos políticos quanto econômicos e morais. Linguisticamente, há também uma analogia em jogo. Em seu uso coloquial, "dar" pode significar se deixar penetrar. A sinonímia entre um verbo cotidiano e a penetração anal mostra que a cultura brasileira estabelece um paralelismo entre o ato de ser penetrado e o de ser explorado, quase instantaneamente. De fato, “tomar” ou “levar no cu”, “se foder” são popularmente empregados para referenciar algo que não sai como esperado, que dá errado, que coloca uma pessoa em situação ruim ou terrível. No Brasil, a profanação do ânus é o signo banal do malogro.
6.3 Abjeção é a manifestação contra o eu: BDSM e o atentado à integridade corporal
“Sexo é sempre político” (Rubin, 1984, p. 143), pois nossas práticas sexuais nos posicionam como cidadãos/cidadãs ou dissidentes. “O campo da sexualidade também tem suas próprias políticas internas, desigualdades e modos de opressão” (Rubin, 1984, p. 143), que giram principalmente em torno do privilégio heteronormativo e da integridade corporal. Nesse sentido, o sadomasoquismo pode ser considerado uma má prática sexual que fere a integridade corporal (Rubin, 1984) e a dignidade da mulher (Rubin, 2012). “É a palavra que revela o abjeto” (Kristeva, 1982, p. 21) e o sadomasoquismo é um signo tão escandaloso que é retratado como um termo guarda-chuva que abrange várias fantasias sexuais, tais como acessórios, encenação de papéis (role play) e roupas de couro, como vemos na Figura 3 abaixo (também na Figura 2):

A abjeção é uma questão de signos que não se encaixam, não se integram ou acabam fora de lugar em um sistema de signos significativos, explicação que remete ao estruturalismo de Kristeva (1982). A autora é muito clara quanto ao caráter simbólico da abjeção. Como o abjeto é um signo sem significado, um complexo indescritível e inominável de significado-afeto, muitas vezes o abjeto é ilustrado pelas práticas, corpos e línguas mais inconcebíveis para o/a enunciador/a. A interpretação popular simplista de que no sadomasoquismo o prazer é produzido através da dor, o coloca como um grande candidato a encarnar abjeção. Embora o BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo, Masoquismo) tenha recebido grande atenção crítica e tenha sido considerado um campo que possibilitou discussões complexas sobre o consentimento (Downing, 2013), ele pode ser performado para indexar a permissividade total à violência e uma posição submissa voluntária, como o rosto sorridente de Bolsonaro exemplifica com a ajuda da coleira e das posições assimétricas do corpo. Sabe-se que “a sociedade ocidental moderna avalia os atos sexuais de acordo com um sistema hierárquico de valor sexual” (Rubin, 1984, p. 151), que considera o sexo heterossexual, reprodutivo e conjugal como comportamento apropriado, enquanto condena à abjeção, em nome de uma ideologia da reprodução como o sentido da vida, quaisquer outras práticas sexuais. Além da procriação compulsória, a ideia de que a vida deve ser assegurada é também um discurso biológico pervasivo que indica como conduzir a vida sexual; o sexo não-reprodutivo e arriscado é, então, visto como uma contraparte preexistente naturalmente abjeta. A abjeção sexual, entretanto, não se refere a entidades biológicas preexistentes, mas é constituída no curso de práticas sociais historicamente específicas e de suas representações políticas. Por essa razão, os cartuns satíricos contribuem para a naturalização da abjeção em dissidentes sexuais e ratificam que não só o fascista Bolsonaro, mas também seus opositores de esquerda produzem repugnância e outros sentimentos feios contra dissidentes sexuais. O que foi escolhido pelos cartunistas de esquerda para retratar os ex-presidentes foram basicamente as três figuras principais identificadas por Rubin (1984) como representantes do “mau sexo”, as quais continuam sendo performadas como armas para diminuir a humanidade de sexualidades dissidentes. As principais figuras historicamente investidas em retratar abjeção sexual: os amantes de rapazes, a penetração do ânus masculino e os sadomasoquistas ainda figuram como tabus morais e são recursos simbólicos caros para performar figuras heterossexuais desprezíveis que são politicamente abjetas. Além disso, as representações deixam o patriarcado masculino incontestado, enquanto reforçam ou mesmo impõem padrões de normalidade como o contrário da abjeção. Com base no trabalho de Fahs, Dudy e Stage (2013), pode-se dizer que o pânico moral oblitera crises graves de sexualidade. Eles desviam a atenção da má prática sexual masculina, por exemplo. A masculinidade normativa é tão coercitiva que bloqueia o uso de práticas sexuais masculinas criminosas como insultos: assediar, estuprar, contratar prostitutas, fazer sexo com meninas não parece ser vergonhoso ou ultrajante de forma alguma, apenas invisível. Além disso, as sexualidades representadas pelos cartuns não existem, são apropriações paródicas de práticas imaginadas por homens heterossexuais, ali empregadas para ofender, satirizar, e diminuir politicamente outros homens heterossexuais.
6.4 “Nas bolas” do colonialismo
Abjeção boa é aquela que balança simbolicamente nos testículos da colonização. O balançar desestabiliza a posição política do ex-presidente, assim como sua heterossexualidade ao performá-lo com um abraçador de sacos estrangeiros. Por um lado, a seguinte performance é cômica e ética, porque inventa uma sexualidade: o “cheira-sacos”. Ela não ofende uma sexualidade estigmatizada, não age sobre nossos corpos queer produzindo uma hierarquia emocional antiética, na qual acabamos ferides e envergonhades por nossos desejos. Por outro lado, ela funciona como chacota, pois capta razoavelmente bem um conjunto de críticas contra o comportamento político submisso de Bolsonaro (figura 4). É uma chacota decolonial,4 que esfrega algumas coisas na cara do ex-presidente. É uma performance abjeta, como qualquer par de testículos, pela perspectiva do macho. No entanto, é colorida com branquitude e sarcasmo decolonial. Além disso, ela alude à simplicidade de um tesouro cultural brasileiro: a gíria puxa-saco.

A imagem representando testículos desproporcionalmente grandes, com um presidente latino-americano felizmente agarrado a eles, nos conduz a uma crítica do colonialismo através da dramatização do tropo “puxa-saco”. “Puxa-saco” refere-se a um lisonjeador, uma pessoa que elogia efusivamente e age de forma servil, frequentemente movida por interesses pessoais. Puxar o saco de alguém significa bajular. A imagem enfatiza o “puxar” através de uma pegada entusiasmada indexada pela forma como as mãos agarram à pele, o que é feito com um sorriso e um abraço carinhoso. A caracterização das gônadas de acordo com os traços físicos de Trump, pode ser lida como uma performance tipicamente masculina (Bonfante, 2016), já que os usuários do aplicativo Grindr frequentemente constroem seus perfis de paquera – ou “pegação”5 nas palavras do autor – descrevendo e construindo cuidadosamente seus genitais. A performance detalhada dos órgãos genitais importa para homens enquanto produtora de identidade. No que se refere a transformar em armas as identidades ou sexualidades abjetas, o exemplo acima não ataca sexualidades ou identidades não-normativas específicas, mas um traço pessoal que o macho tóxico possui: um desejo ardiloso por si mesmo e por outros machos. Além disso, o signo debochado do/a “puxa-saco” indexa uma prática que reduz o homem político a menos homem (no sentido de hombridade e dignidade), sem apelar para a misoginia, homofobia ou ao ataque a desejos e práticas sexuais dissidentes. Ao mostrar Bolsonaro humilhantemente abraçando e agarrando os testículos de Trump, ele não só foi reduzido em tamanho, mas também em agência e independência, reinscrevendo uma percepção que considero justa do que ele significou politicamente ao Brasil: um facilitador da exploração e despossessão colonial.
7. Considerações finais
As performances abjetas, mobilizadas nos cartuns, se propuseram a representar a abjeção que os ex-presidentes despertam, embora performem apenas o senso comum e os preconceitos corriqueiros sobre a sexualidade humana, ao mesmo tempo em que fomentam respeito reverente pela matriz cis-heterossexual. Devido à sua aposta na vergonha, os cartuns acabam por se alinhar com o bolsonarismo em vez de criticá-lo, fornecendo representações de uma força autoritária anti-altera que abraça a austeridade como uma forma de comprometer o progresso democrático de dissidentes sexuais. Embora representem o amor macho dos presidentes de forma provocadora, os três primeiros desenhos performam uma identidade sexual à qual os ex-presidentes não se conformam, e ao fazê-lo, reforçam a abjeção projetada na sexualidade não-heterossexual, sugerindo que não há normalidade a não ser a dos criticados. A crítica desse artigo se dirige às disposições afetivas da performance de uma demonização fascista do prazer anal, da homossexualidade passiva e de práticas sexuais não-normativas através de piadas que se, em última instância fazem rir, não são éticas, porque legitimam o patriarcado, a homofobia e um pânico moral em torno do ânus. Embora homens abertamente heterossexuais também possam ter motivos abundantes de vergonha sexual, a cis-heteronormatividade continua protegendo suas práticas sexuais como naturais, desejáveis e lisonjeiras. Esse é um dos privilégios heterossexuais que ataco neste texto. Além disso, também proponho um convite aos artistas da esquerda no Brasil, para refletirem sobre a forma como a vergonha sexual direcionada contra dissidentes sexuais para escarnecer de figuras heterossexuais tem sido empregada no humor. E sobretudo para nos perguntar quais os efeitos materiais que podem ser oriundos dessas circulações discursivas. Finalmente, o artigo investe numa discussão sobre a abjeção que pode ser frutífera para repensar o conceito como prototípico, intertextual e performativo. Pensar abjeção como uma força pragmática pode abrir caminho para a democratização da abjeção e para pensar eticamente sua produção semiótica e seu uso como arma.
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Notas
Recepção: 30 Maio 2024
Aprovação: 12 Novembro 2024
Publicado: 01 Março 2026